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December 24 Entrevista a Ana MascarenhasEntrevista a Ana Mascarenhas a propósito da publicação do seu livro Louca Sensatez, pela Editorial 100 1. A vida, a escrita, biografia e literatura (experiência na escrita, inícios, leituras, autores)Vida… a vida é para ser vivida com vontade de viver e não apenas existir.Educo-me vezes sem conta quando existem dias menos bons na minha vida, contudo nem sempre sigo esta máxima.De facto é mais fácil segui-la quando estou perante o calor humano e/ou da natureza, como o sol, a praia, o campo, o ar, a terra, a água, o vento, e até o próprio fogo.Identifico-me com todos estes elementos, contudo, existe um que me aproxima da vontade de viver, é o fogo, o calor e/ou ardor, que pelos seus condimentos, requerem estados de paixão constantes, e é a paixão, seja ela pela escrita pelo que for, que me move para me sentir viva.A escrita para além de ter sido uma descoberta tardia, foi igualmente inconsciente.Sempre gostei de escrever, contudo nunca me apercebi o quanto ela representou e representa para mim nos dias de hoje, digamos que a mesma se tornou na minha companhia e na minha solidão, no meu refúgio e no meu amparo, com ela revelo-me e acuso-me, mas nunca deixando de ser eu.A minha biografia não é nem mais nem menos que qualquer biografia humana, é apenas diferente e semelhante, diferente por ser única, semelhante por ser humana.Estudei e continuo a estudar, aliás, acho que será um acompanhamento para o resto da minha vida, trabalho como todos os comuns dos mortais e divago com a escrita. Digamos que herdei do meu pai este bichinho de querer saber sempre mais… apenas isso…A leitura aliada à escrita seguiu o mesmo trajecto, sendo que devo a uma pessoa esse trajecto, à Isabel Ramos. A Isabel é uma pessoa ponderada, com ela aprendi a crescer com maior dignidade.Ensinou-me a crescer e a ver a vida de forma mais racional sem nunca esquecer a emotividade, contudo sentida de forma igualmente racional, ou seja, dentro dos limites da nossa insanidade mental.Aprendi a gostar de ler com vontade de devorar cada história, cada personagem, cada clima instalado, cada tudo e cada nada. Por isso, Obrigada Isabel, por me teres ensinado a iniciar-me neste campo da literatura.Autores de eleição existe um, digo-me Pessoana 100% porque tenho várias almas, aliás como Fernando Pessoa com os seus heterónimos com vontade de ver nascer almas várias, sem nunca delas querer se alienar por completo.Assim, tenho vários estados de alma que se alimentam da escrita, consoante o estado de espírito que as mesmas evocam.2. Fantasia, realidade, “ser em”Fantasiar é sonhar acordada, é viver emoções fortes sem romper com os laços tradicionais desta vida que nos ensinou a viver no certinho e no equilíbrio do bom senso, por isso está intrinsecamente ligada à realidade.Sem fantasiar não saberia viver na realidade, porque é na realidade que aprendo a fantasiar.Fantasiar e/ou “ser em…” e não, “ser-se…”, é a diferença disso mesmo, ou seja, eu posso ser em Ti algo, sem me alienar e sem me sobrepor a esse “Ti”, que pode ser inclusive uma forma lírica de fantasiar.3. Espontaneidade e controloEspontaneidade… de facto já fui mais espontânea, já fui naturalmente espontânea, actualmente sou controladamente espontânea, mas de forma natural.A vida ensinou-me a ser a própria essência de forma natural, e a manter esta minha essência com a mesma pujança com que a juventude se rege, aliás, de outra maneira não poderia ser, pois a essência nasce connosco, contudo, ensinou-me igualmente a controlar emoções, partilhar sentimentos sem magoar, o que por vezes é um desafio à minha própria alma, e acima de tudo ensinou-me a ser naturalmente controlada, mas sem nunca perder a minha própria espontaneidade, sem nunca me perder e me alienar do meu verdadeiro “Eu” como pessoa que sou.4. Pensamento, sonho, desejo, factoDescartes disse, “Penso, logo existo”, é…, é isso mesmo, o pensamento está em mim, dentro de mim e dentro do mais comum dos mortais, está ligado à lógica irracional. Lógica, porque seria ilógico não pensarmos, contudo igualmente irracional, porque nem sempre a lógica faz parte dum padrão de razoabilidade aceitável, logo, trata-se de uma lógica irracional.Quanto ao sonho, é ele que comanda a vida. Já António Gedeão na letra da música “Pedra Filosofal” o disse, cabe a mim decidir se devo ou não seguir esta máxima, decidi segui-la, caso contrário o que estaria eu hoje aqui a fazer?Foi de um sonho, de um desejo infinito que se tornou um facto, esta “Louca Sensatez”.5. O peso da palavraA palavra tem peso quando sentida no silêncio do nada, quando sentida naturalmente.Sentir o peso que ela em mim provoca, independentemente do choque que venha a ter, independentemente da forma como venha a sentir, é a palavra, é o peso dela, que me faz verdadeiramente saber sentir, saber rir e chorar, saber mover montanhas e perdoar, mas sempre, sempre com vontade de querer experimentar novamente sensações, que provoquem um peso que se liberta através da palavra.6. Solidão, plenitude, interioridadeA solidão é a minha companhia de eleição, com ela aprendi a gerir emoções fortes, aprendi a criar a plenitude que preciso ter, aprendi a interiorizar, aprendi a conhecer-me melhor, por isso não posso nem quero abdicar desta minha nova companhia.E nova porquê? Porque foi há poucos anos que tomei consciência da preciosidade do que é saber viver no meio da multidão, e sentir o peso da solidão, aliás de igual modo como sinto o peso da palavra.A solidão é o meu fio condutor, com ela invoco musas inspiradoras para os meus momentos de escrita, foi na solidão que encontrei a paz e a plenitude interior, e foi na solidão que aprendi também a saber encontrar-me.7. Os limites do discursoO discurso não tem limites, posso discursar pensando, e em última instância o meu limite é a minha imaginação, porque o pensamento não tem limites, logo, se interiorizar o discurso, acabo por concluir que o discurso é infinitamente ilimitado.8. Liberdade de ser na palavraA liberdade foi uma conquista, ainda o é, nada se tem sem esforço ou empenho, contudo e no meu entendimento, liberdade é e será sempre um sinónimo de responsabilidade, logo, serei sempre responsável por fazer da palavra a honra que ela merece ser e/ou ter para ser proferida com alma sentida.9. Silêncio, transe, loucura, lucidez, harmonia, sensatez, expressão verbal, silêncio…O silêncio é o aconchego do meu ser, é saber ouvir o silêncio ensurdecedor, sem nunca me conseguir magoar.Pode ser em estado de transe ou loucura, lucidez ou harmonia, mas é preciso saber ouvir o silêncio, independentemente do estado de alma que me visita.Faço questão de saber viver com o silêncio, aliás, aliado ao silêncio está a solidão, sou silêncio e também solidão quando deles necessito, por isso, à procura deles vou e não hesito.10. Prazer, o corpo na palavra ou a palavra no corpoO prazer de escrever e ler é igualmente escrever com o corpo, é dançar com vida, mover com ritmos assassinos para matar a sede de dançar, digamos que é uma patologia psicopata, pois a vontade depois de matar, renasce com mais vontade ainda.O prazer para mim está inegavelmente associado à dança, ao corpo, à palavra, à escrita, à leitura, à sensação de sentir até nada proferir, à sensação de tocar mesmo sem corpo habitar, mas saber sentir para lá do expectável, saber sentir o que é o prazer de viver por cima de amontoados de palavras que provocam o caos e que quero aprender a saber viver no meio dele, no meio do caos.Ainda estou a educar-me a viver no meio do caos, no meio de palavras sem corpo e de corpo sem palavras, estou a ensinar-me a sentir prazer pelo simples facto de querer viver mais e melhor.Quero apenas vida em mim…Vida em Mim que há em Ti, Vida em Ti que há em Mim.ÍNDICE Louca Sensatez
Escrevo a Alma no Tempo 7 Rituais 9 Tango, Como Te Mereço 13 Refúgio 17 Enfeitiçada 19 Essências Odaliscas 25 Neste Momento 29 Lágrimas de Chuva 31 Natureza Selvagem 33 Saber Viver na Virgindade, Maria 35 Sou Tua, Desfruta-me 39 Tenho um Furacão Dentro de Mim 41 Grito Apagado 43 O Uivo da Loba 45 As Mãos não Calam 47 Uma Procura, um Reencontro 49 Sensações Perdidas 51 Preciso Urgentemente de Viver! 53 Uma Dança Por Dançar 55 Neve Negra! 59 Dói-me a Alma 61 Sabre 65 A Dor de Não Tocar 67 Renasço Lapidada de Cinzas Outrora Incendiada, por Lenha Nunca Queimada 69 Já Não Tenho Ilusões 71 Desejos Infinitos 73 Tempo 75 Acordar Sem Dor de Saber o que é a Paixão 77 Testemunhos de Meia-Idade 79 Emocionalmente Esgotada 81 Mulher Moderna à Moda Antiga 83 Imagino-te Príncipe 85 Frustrações Vividas 87 Aprender a Perder-me Novamente 89 Que o Amor Nunca Te Fira 91 Continuarei a Acreditar?! 93 Sol de Inverno 95 Almas por Cuidar 97 Vagueio-me por Ti Mãe Terra. 99 Amores Impossíveis 101 Emoções 103 Acordei de Manhã Cedo 105 Estados Equilibrados por Desequilibrar 107 Desorientadamente Saudável 109 Desinteressado, Sobretudo! 111 Palavras com Vida Própria. 113 Alma Cigana 115 Apenas Não Existo 117 Pequenos Grandes Momentos 119 Escrevo, Escrevo e Nada Digo 121 Palavras Atropeladas 123 Dei-te a Minha Alma! 125 Um Abraço Desértico 127 Lágrima 129 Descansar a Morte 131 Mergulho-me Apenas 133 Como é Difícil Abraçar com Alma 135 Palavras com Dom 137 Pedras 139 Cinzas do Nada 141 Casulos de Arame Farpado 143 A Vida de Uma Tela por Pintar 147 Sonhar Acordada 151 Um Caso sem Caso 153 Retiro 155 Uma Casa de Madeira Branca, Aparentemente Velha e Muito Frágil 157 Regressa 161 O Sexo de Dante 163 Labirinto 165 Distância Traída 169 Corrimão sem Escadas 171 Solto-me 175 Uma Estranha Forma de Vida 177 Crueldades da Vida 179 É Cansaço, Será? 183 Um Abraço sem Voz 185 Pensar Alto 187 Navegantes Perdidos 189 Um Dia Saberei Ser 191 Mata-me Sem Vez 193 PEDAÇOS INSENSÍVEIS 195 Já Não Sei Escrever 197 Nós Sem Amarras 199 Mar de Sesimbra 201 Namoros Esquecidos 203 Dúvidas de Leito 205 Sinto-me Apenas 207Serei Apenas Escrita 209 Oiço a Chuva lá Fora 211 Sabe Bem Sorrir 213 Paixão Atropelada 215 Verão Primaveril 217 Assumidamente 219 Criança Sozinha 221 Palavras são Palavras 223 Solidão como Companhia 225 Deixei-te Entrar na Minha Solidão 227 Escravizas-me Sem Nada em Troca 229 Esta Já Não Sou Eu 231 Alma Calada e Grito Ausente 233 Cinzas Férteis 235 O Silêncio das Palavras 237 Saber Morrer com Vida 239
Índice 241 Livro Louca SensatezTítulo: Louca Sensatez - Autora: Ana Mascarenhas
Ana Mascarenhas - Louca Sensatez - ISBN: 978-972-8843-90-8 - Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2009. 244 p. Preço com IVA: 15,75 € Ana Mascarenhas, nasceu em Lisboa em 1969. Actualmente frequenta a Licenciatura em Estudos Portugueses e Lusófonos, sendo o seu maior desafio a escrita, espelhou-se no seu primeiro livro “Louca Sensatez”.
Escrevo a Alma no Tempo
Assim sou, reservada quando exposta, exposta quando reservada.Com a escrita me acuso, me relato, me defendo e me inocento.Com a escrita me dispo de preconceitos, revelo-me sem pudor e sem regras.Com a escrita sou eu, apenas eu como mulher, amante e pródiga no meu Eu.Com a escrita os telhados de vidro passam a zinco e sem eles nada valho.Com a escrita sou a revelação da alma despida, e do corpo coberto.E porque há momentos mágicos que permanecem intocáveis na minha memória.E porque há momentos vivos que permanecem escritos para não se quebrarem.E porque o que escrevo não é só o reflexo da minha alma, mas sim ela mesma.E porque o que escrevo é igualmente a própria alma sem reflexo e sem espelho.E porque o que escrevo é também água transparente que reflecte-se no meu corpo.Escrevo memórias da minha vida, como tantas vidas de memórias vividas.Escrevo apenas a vida que é longa, mas tão curta quando olho para trás.Escrevo o tempo que me percorre e eu leio-o sem ter tempo de o ler.Escrevo apenas por o tempo ter tempo, mas não ter tempo para dele conta tomar.O tempo que me dedico a escrever, é também o tempo do meu refúgio.O tempo que ganho e não perco, é igualmente o tempo do meu saber.O tempo que gosto de ter, é o tempo que quero e o tempo não esquece.O tempo é isso mesmo, apenas tempo.Tempo para rir e para chorar.Tempo para sofrer e para amar.Tempo para aprender e ensinar.Tempo para parar e para pensar.Tempo que te dedicas a mim, por ser eu que te tomo de mim.Tempo que te ofereces a mim, por saber que serei dona te ti.Com a escrita revelas-me, as memórias acusam-me e a leitura inocenta-me.Com a escrita temporizas-me, a alma solta-se e a paixão liberta-se.Por isso,Leio-te, leio-me e calo-me silenciada por ti, calada no tempo. |
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